Reflexões...

 

    Ao longo do meu estágio verifiquei diversas situações pouco apropriadas no ensino de Língua Portuguesa a alunos surdos.

    Todos os dias, no início das aulas os alunos escreviam no quadro a data. De seguida, a professora redigia um texto retirado do manual. Posteriormente fazia uma leitura oral e sílaba a sílaba cada palavra, explicando o seu significado e o seu sentido com sons fortes e fracos. Finalmente e depois de reflectida a leitura, os alunos tinham que encontrar e sublinhar os diversos verbos do texto.     

    Observei que os alunos demonstravam muitas dificuldades em compreender o sentido daquelas frases e do texto global. De seguida a professora escrevia as palavras  e desenhos a acompanhar ou então expressava-se oralmente. 

    A razão pelo qual estas crianças não conseguiam compreender qual o contexto da história é que apesar da professora poder transmitir gestualmente algumas palavras mas não da maneira correcta, ou seja, a professora transmitia através do Português Gestual e sem expressão facial e/ou corporal.

    Para que a aula fosse mais estimulante para estas crianças, partia-se do conto da história em Língua Gestual Portuguesa, reconto de cada um, depois talvez uma dramatização para que estes se sentissem no papel das personagens (podem ser os próprios professores a representar) e depois é que se projectava o texto. Explorava-se o texto frase a frase ou parágrafo a parágrafo sempre acompanhado com o vídeo em L.G.P. Os vocabulários desconhecidos poderiam ser explorados através do desenho, figura ou foto.

É importante referir que por vezes os textos levam demasiado tempo e aulas para serem bem explorados.

 
 
 

    Ao longo da minha carreira tive sempre o objectivo de me preocupar com a felicidade, a motivação e o bem estar das crianças surdas pois, sem isso ninguém é pessoa e nem aprende. 

    Uma das salas de aula onde vivenciei o meu estágio de 1.º Ciclo funcionava no horário normal (das 8h30 às 15h) havendo um intervalo mais prolongado à hora de almoço.

    Esta sala quanto à sua área, na minha opinião, a disposição do mobilário e materiais permitia um espaço físico amplo e funcional.

    A sala apresentava bastante luminosidade, pelo facto de uma das paredes ser composta por imensas janelas. Isto é um dos factores muito importantes, pois uma criança surda apesar de não ouvir, utiliza demasiado o sentido da visão (sentido mais apurado), para comunicar e para observar tudo o que a envolve.

    As mesas estavam dispostas em forma de "U", isto era importante quando havia diálogo colectivo, debates entre os alunos. Esta disposição das mesas possibilitava os alunos observarem os discursos dos seus colegas e intervirem/participarem com mais interesse.

    A campainha era luminosa e estava situada mesmo de frente dos alunos e em cima do quadro (muito importante não só no aviso dos intervalos mas também sendo um dispositivo muito útil na prevenção seja de incêndios, sismos....).

 

 

    Ao longo dos anos tive a oportunidade de observar a realidade do ensino dos surdos.

    Como é de esperar que quase sempre, as escolas e os apoios, estão longe daquilo que se desejaria para integrar surdos numa aula.

    Nem todas as escolas e as estruturas sociais estão preparadas para receberem alunos surdos por diversos factores.

    - A principal dificuldade encontrada nas crianças surdas é a comunicação seja ela com os pais, familiares, elementos da sociedade (existe uma grande barreira na informação);

    - A Língua Gestual Portuguesa é considerada a Língua Materna (1.ª Língua dos surdos) e a Língua Portuguesa passou recentemente a ser a 2.ª Língua;

    - Estas crianças entram muito tarde num estabelecimento e por isso aprendem a Língua Gestual Portuguesa também muito tarde ( muitas vezes sendo esta Língua uma facilitadora de bases);

    - A falta de informações aos pais e Encarregados de Educação da existência de escolas que beneficiam de um ensino bilingue (ensino que integram alunos surdos e ouvintes);

    - Poucos Encarregados de Educação se empenham em procurar aprender a Língua Gestual Portuguesa (L.G.P.) para assim que possa comunicar com os seus filhos (factor muito importante);

    - Todas as crianças surdas deveriam aprender L.G.P. desde a pré-escolar para que assim seja facilitada a comunicação e interiorização de uma estrutura da sua 1.ª Língua;

    - Muitas das crianças surdas entram demasiado tarde numa escola onde possam aprender a sua Língua Materna (é um grande faclitador na aprendizagem das mesmas.

  

 

    Achei interessante reflectir sobre tudo relacionado com a educação dos urdos ao longo da minha vida. Penso que será benéfico para quem estiver interessado, são apenas algumas opiniões que pretendo partilhar.

    Essas reflexões irão sendo colocadas aos pouco... Pretende-se assim também ser informativo a quem pouco conhece ou desconhece esta comunidade que usufrui de uma Língua tão rica que dificilmente se aprende, a Língua Gestual Portuguesa.

    Há factores que são bastante importantes na comunicação entre surdos e a própria Língua, que irei abordar numa outra ocasião.

    Espero que gostem e que possam comprender, perceber ou conhecer um pouco mais sobre este tema.